sábado, 5 de agosto de 2017

A negação da morte

Na parte superior do vidro, em letras luminosas, o ônibus trazia a palavra “Cemitério”. Quando parou no ponto, a mulher que estava a meu lado, de corpo franzino, cabelos brancos, rosto enrugado, aproximou-se da porta, colocou o pé no degrau, apoiou as mãos nos suportes, mas não chegou a entrar. Ao invés disso, ergueu lentamente a cabeça e perguntou:
- “Com licença, se faz favor, este é o que vai ao cemitério?”
- “Ao cemitério, sim, senhora”, disse o motorista.
Ao ouvir a resposta, a velha olhou dum lado, depois do outro, e voltou ao seu lugar.
Minutos depois, ao chegar o ônibus com o letreiro do “Hipermercado”, a passageira embarcou sem nenhuma hesitação. E, antes que a porta se fechasse por inteiro, penso tê-la visto sorrir, discretamente.


(Entroncamento, 18 de setembro de 2014)

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